16 de abr de 2009

Acordo ortográfico: Bom para quem?

Tenho dificuldade com mudanças, sobretudo quando elas vêm de fora para dentro, quando sou obrigado a me adaptar a uma situação que não foi provocada por mim. Algumas delas são inevitáveis para a maioria das pessoas: a perda de um emprego, o afastamento de alguém querido do seu convívio, uma paraplegia... Entre as evitáveis, pode estar a nova reforma ortográfica, se o seu trabalho ou sua formação não dependerem de uma escrita correta.

Eu gosto de escrever, mas como meu trabalho não está diretamente relacionado à esta habilidade, pensei em ignorar o acordo entre os países de língua portuguesa. Mas, em nome deste prazer, vou cedendo aos poucos, o que não quer dizer que concordo. Encaro esta reforma como uma dessas mudanças empurradas goela abaixo. Ter de esquecer regras que levamos alguns anos para aprender, e simplesmente trocá-las por outras regras, sem uma utilidade convincente, não é sensato, e pelo que andei pesquisando meu raciocínio não é diferente do de muita gente especializada no assunto.

Numa reportagem de Filipa M. Ribeiro intitulada "Acordo ou desacordo?", para o site www.editonweb.com, Luiz Carlos Cagliari, docente no departamento de Linguística da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp) diz: "as reformas ortográficas têm sido feitas sem o conhecimento científico sobre o que é realmente a ortografia. É daí que resultam muitos equívocos". (...) Os argumentos a favor da reforma são "insuficientes". "Um deles é o que diz que a reforma vai «facilitar o uso da língua». Mudar a ortografia não facilita a vida de ninguém, porque a ortografia não representa a fala de ninguém. É simplesmente uma representação gráfica que permite a leitura", exemplifica.
No mesmo site, Paulo Osório, linguista e professor na Universidade da Beira Interior (Portugal) diz: "Quanto às implicações do novo acordo ao nível do ensino do Português, irá dificultar o ensino". (...) "Todos sabemos que o plano sintáctico é o mais complicado de ensinar e as mudanças previstas no novo documento irão provocar grande resistência por parte dos professores", adverte.

Sem considerar aqui as perdas e ganhos econômicos decorrentes, pessoais (jogarei meu dicionário fora e terei de comprar outro atualizado) ou empresariais (livrarias e editoras), sinto este acordo, do lado brasileiro, como uma tentativa de aproximar a linguagem escrita à falada, uma busca por simplificar nosso português; mas as incorreções ortográficas que leio e vejo no dia-a-dia estão se aproximando cada vez mais dos erros de pronúncia comuns nas camadas mais populares. Sem quaisquer preconceitos de minha parte, imagino que relação isso poderia ter com o abandono do ensino público e os altos índices de analfabetismo funcional, com as ações de inclusão digital nas comunidades carentes, e com o fato de termos um presidente da república semianalfabeto. Em outras palavras, por que não investir pesado na educação pública como ela realmente merece, e agora, em vez de ficar procurando (e empurrando-nos) soluções superficiais?

2 comentários:

  1. Creio que sejamos nós, os maiores culpados por essa situação. Particularmente percebo que nada faço no sentido de buscar meios de expor minhas idéias,muito menos de participar de movimentos de defesa dos interesses coletivos.
    Precisamos aprender a realmente sair do nosso "casulo individual".
    Parabéns pelo seu poder de traduzir em letras o q seu pensamento lhe diz...

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  2. Obrigado, leninha. Torço para que todos consigamos (em breve tempo!) pensar e fazer mais pelo coletivo, sem descuidar do individual, claro.

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