21 de fev de 2011

Meu passado e um certo morador de rua

Há pouco tempo, um trio de moradores de rua vinha pernoitando na frente do imóvel onde resido. Como em casa não somos de discriminar ninguém, e a presença deles não nos incomodava, sempre os cumprimentamos e respeitamos; eventualmente, dávamos-lhes água e alimento.
Curiosamente, um deles disse aos meus familiares que havia estudado comigo. Certo dia, com mais tempo, parei para conversar com eles, e meu ex-colega de classe se apresentou, mas não consegui reconhecê-lo, durante a conversa, nem pelo seu nome, nem pela sua fisionomia: isso somente aconteceu após umas duas horas, não após um árduo exercício de memória, mas após um relaxamento da mesma. Então, voltando no tempo...

1977, num colégio público da Zona Oeste carioca. Eu cursava o antigo ginasial, e após ter estudado desde a segunda série primária em uma mesma turma, fui nesse ano fazer a sétima série em outra turma, onde praticamente não conhecia ninguém. Não sei até hoje a razão da transferência (desfeita no ano seguinte, quando voltei à minha turma original): se alguém havia “pedido minha cabeça” por algum motivo, ou se a linda loirinha que ocupou “minha” vaga na turma da qual eu sempre fizera parte tinha um bom “pistolão” para encaixá-la numa turma de bons alunos (a minha turma original).
O fato é que a minha nova turma era mal vista; haviam alunos repetentes, rebeldes, agressivos... Fora duas meninas com quem eu me relacionava bem, e um bom colega de primeiro ano primário, não somente eu me sentia inadequado naquele ambiente, como me sentia até mesmo ameaçado; sim, o clima de animosidade era comum; quase todos os garotos procurando demonstrar força e superioridade uns sobre os outros. Eu, o franzino pacífico, vivi alguns momentos de tensão naquele longo ano.
Um dos caras valentes (soube anos depois que ele cumprira pena e morrera na Ilha Grande) certa vez me defendeu de um outro que vivia me ameaçando, dizendo-lhe:
- Deixe o cara em paz! Ele não está te fazendo nada!
A liderança me pareceu bem clara, já que não fui mais importunado pelo provocador.

Retornando aos dias de hoje...
Esta lembrança é a que me veio, daquela época. Aí ficou fácil lembrar quem era o morador de rua: era o provocador, aquele que recebeu a “ordem” para me deixar em paz.

O mundo dá voltas, mesmo.

Para matar uma possível curiosidade: não compartilhei minha lembrança com o desafortunado. Não mudaria em nada nossas vidas. Apenas agradeci a Deus por ter feito escolhas diferentes e por ter tido mais oportunidades na vida do que aquele pobre garoto.

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